ATUALIZAÇÕES WALTZING MATILDA – RECADO DO EDITOR

Estamos disponibilizando a todos a primeira atualização com os textos e fotos da brasileira embarcada no Steve Irwin, Barbara Veiga.

Durante a leitura, vocês irão notar um português meio extrangeiro, fato que é explicado pela Barbara viver há vários anos fora do Brasil e falar e escrever pouco em português.

Como a bordo do Steve Irwin o teclado não tem pontuação para português, teclado inglês não possui alguns acentos que usamos na nossa língua, fiz o máximo possível para tornar a leitura agradável.

Esta primeira atualização, cobre a viagem da Barbara no Steve do dia 8 de outubro de 2009 a 19 de dezembro de 2009, com todas as fotos que ela selecionou para ilustrar os textos.

Espero que todos gostem.

Abraços
O EDITOR
Carlos Alberto Ferreira Francisco
Coordenador Regional Voluntário
Instituto Sea Shepherd Brasil
(Instituto Guardiões do Mar)

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Nadar com os pinguins – Uma experiência pra lá de louca!!!

19-12-2009

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O capitão Paul veio hoje com uma sugestão a tripulação de nadar nas águas gélidas da Antártida com os pingüins. Não deixa de ser uma proposta tentadora e me parece que em outras campanhas isso já aconteceu. Mas eu também adoro estar bem aquecida, não tem nada melhor que olhar esse gelo todo e estar protegida com meus três pares de meia, duas calca (uma delas sendo térmica), três camisas, dois casacos e de vez em quando ate coloco um “mustang suit” em cima de tudo isso.
Mas imagine só… nado com pingüins?! Quando ‘e que eu vou ter a chance de fazer isso na minha vida novamente?

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Difícil resistir, ate porque tenho dentro de mim uma aventureira – não foi a toa que já saltei de bungee-jump no Canadá, passei pela costa da Somália enfrentando os possíveis piratas da região e viajei para os cantos mais extremos do mundo, como por exemplo, o Sudão. Não dá, eu tenho que ir!!!
A solução ‘e ter muitos casacos me aguardando depois do “nado” ou “pulo” nas águas da Antártida. Não sei se vou ter a mesma disposição que nossos queridos amigos pingüins para ficar tanto tempo na água que pode ser abaixo de zero.
Ok, eu fui ate o convés do navio! Os corajosos estavam La. Primeiro eu fiquei olhando e fotografando os primeiros voluntários a saltarem. Wietse, Dan, Brian, Chad, James (que inclusive saltou duas vezes) e Brent, que fez o nado completamente nu!!! Esse sim merece aplausos!!! Ate o câmera-man do Animal Planet encarou a água gelada… foi muito divertido de olhar.

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E então faltava eu… bem, eu estava de havaianas e meus pés estavam começando a congelar. Das mulheres, Susan, Nicola e Sophie já tinham saltado. Eu só tinha um casaco que me separava dos ventos congelantes que me levariam ate o mar da Antártida. Não podia mais esperar. Se não fosse naquele momento, eu ia desistir por causa do frio. Então eu fui La e me joguei na água! Fui… fui sem medo, dei três pulinhos e saltei que nem uma sereia… até que WOWWWW um choque tremendo. Impossível de ficar mais que três segundos!!! E eu devo ter ficado uns dez.
Para voltar ao navio, era preciso pegar duas cordas e se equilibrar nos degraus que me levaram de volta ao meu camarote quentinho. O esquentador estava ligado, me esperando. Eu mal pude sentir meus dedos das mãos e dos pés… mas a experiência foi realmente única! Nunca me senti tão cheia de energia e tão feliz por ter vivido isso. Porem… não sei se faria de novo por causa do frio que passei! Bom, de repente eu faria sim…
Paul vai preparar um certificado para cada um que saltou desde o navio ate as águas glaciais. Achei interessante a idéia e vou guardar com muito carinho. De repente ate emoldurar e colocar na minha casa e lembrar que eu posso ser bem corajosa as vezes… :)
O dia já tinha começado bem. O nado foi as 11hs, o almoço da Laura foi delicioso e nós estávamos dessa vez ancorados pertinho de uma base australiana. A primeira base construída na década de 10, e la os residentes temporários (eles ficam 6 semanas por ano morando na base) fazem estudos e pesquisas com objetos que são encontrados no gelo.
Cientistas e arqueólogos nos convidaram para visitar a base. Pegamos o Delta (o nosso barco inflável) e estávamos: eu, o capitão Paul, Laura e o pessoal do Animal Planet. Eu tenho que dizer que pisar na Antártida foi uma experiência única. Fui primeiramente recebida por uma quantidade surreal de pingüins, aves e focas… foi incrível poder estar numa distancia de 1 metro desses animais num ambiente natural, no habitat deles. Eu fiquei muito emocionada nesse momento. Foram duas horas de muita paz e reflexão, no porque que eu estava ali, etc.
Parecia mesmo um sonho! Todo aquele visual e eu me senti rodeada de tanta vida… Meus olhos encheram d água e cada segundo foi único. Foi um dos dias mais especiais de toda minha existência!
A base australiana Mawson`s Huts Foundation existe ha mais de 100 anos, e ‘e mais antiga que a base francesa que Locky e Chris visitaram ontem, metade do tempo de existência. O total de pessoas na base é de dez pessoas, que nos receberam cordialmente, fizeram um pequeno tour por esta fantástica região e nos ofereceram chá com biscoitos em seu pequeno abrigo.
O laboratório ‘e interessante. Vimos latas, garrafas de diferentes nacionalidades, todos os vestígios dos exploradores entre 1910-1912. Visitamos também a antiga e original cabana feita de madeira usada pelos mesmos exploradores, ainda preservada. A cabana era pequena, havia uma sala de revelação de filmes, um fogão, uma sala com prateleiras ainda com livros da mesma época e um quarto com apenas uma cama. O isolamento térmico parecia ainda muito bom para a época, mesmo com o gelo que estava por toda parte.
Os integrantes da base foram convidados por Paul para jantar no Steve Irwin essa noite e Laura preparou um cardápio especial junto a nossa tradutora japonesa Leela. E foi um jantar fenomenal!!! Sushi vegano e para sobremesa, strudel de maca. Hum… Fui ate o convés depois desse dia maravilhoso e fiquei olhando os icebergs que nos rodeava e pensei como sou uma pessoa de sorte!

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Um raio no gelo

18-12-2009

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Atravessar esse lençol branco (a tal camada de gelo) foi magnífico. A cada movimento do Steve Irwin quebrávamos um pedaço daqueles grossos blocos de gelo e no momento que fazia a rachadura, desenhava no gelo uma espécie de raio… um raio no gelo.
Passamos essa manha pelas baleias fin e pela tarde orcas. Foi um dia intenso, cheio de icebergs gigantescos e espetaculares. Cena de filme. Cada um com um azul mais claro que o outro. ‘E um verdadeiro privilegio estar aqui e poder acordar (mesmo passando toda noite com claridade) e olhar meu “porthole” (janela do camarote) e ver incríveis icebergs, pingüins e pássaros….
Nossa intenção era chegar o mais próximo possível da base francesa e assim que chegarmos Chris ira com o helicóptero visitar a base com o meu marido, Locky.
Estamos próximos a base francesa. Lucy e Chris se preparam para a partida. Locky leva minhas fotos do Shonan Maru II ate a chefe do distrito de Ateliê. As fotos denunciam o dia em que o navio japonês ameaçou colisão com o Steve Irwin com o “water canon” ligado.

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Aparentemente o vôo foi incrível e a experiência em terras geladas inesquecível, segundo Locky. A tripulação enviou correspondências a ele para que fossem postadas e realmente essa oportunidade de poder enviar uma cartas desde a Antártida foi única. Infelizmente eu não tive o tempo que eu gostaria para escrever um postal (como faço de costume), porem escrevi uma carta para meu pai e outra para minha mãe – afinal graças aos meus tão amados pais estou aqui lutando pelos oceanos.
Não foram cartas com dizeres profundos. Foram breves, porem demonstrando meu respeito e agradecimento por ter me trazido a vida e expressando a minha felicidade de poder estar indo a um lugar tão incrível, experimentando mais uma vez a natureza em sua totalidade. Isso não tem preço que pague, ‘e uma experiência para toda a vida!

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Descobri que o capitão Paul escreve poesias e ele não deixou de citar três de suas obras nessa noite. A maioria inclui tempestades em alto mar, climas de tensões durante as navegações e paixões estarrecedoras em um clima meio medieval recheado de metáforas. Foi interessante perceber o lado poético do protetor dos oceanos. Essa eu não esperava!
Hoje sexta feira, o dia escolhido para socializar com a tripulação, porque abrimos o bar do navio. Chris e Laura estavam atrás do balcão servindo o pessoal e preparando altos drinques. Eu peguei leve, são tomei uma cervejinha porque tenho muito trabalho de edição das fotos de hoje. Estou feliz que ao menos consegui terminar o trabalho das fotos de ontem.
São 22h30 agora e escuto Air com a luz do sol que vai e volta.

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Shonan Maru – Parte 3

17-12-2009

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Tudo estava indo bem durante o meu plantão de 12h as 16hs. Passamos por focas, pingüins, “giant petrel”, “petrel pintado”… esses pássaros lindos que dão aquele colorido mágico no meio de tanto gelo. Além dos icebergs tradicionais, vimos iceberg de cor escura, um acinzentado quase negro e muitos pedacinhos de gelo que formavam desenhos de todos os formatos. Uma hora eu vi no gelo o formato de um elefante, outra um castelo, e por ai vai…

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Até que de repente o Shonan Maru II se aproxima do Steve Irwin com o water canon acionado. Nos assustamos porque nesse momento o Chris, nosso piloto, tinha acabado de voltar de um vôo com o intuito de ver as condições climáticas que estavam a nossa frente (velocidade do vento, quantidade de gelo, cor da água, etc), então as asas estavam sendo desmontadas ainda no helideck como ‘e feito de rotina depois de cada vôo. O helicóptero esta ali exposto, no exato momento que o Shonan Maru II ameaçou uma colisão.

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Piloto automático desligado e o capitão Paul vai para o timão. Tensão na ponte de comando que cada vez ficava mais cheia. A cada minuto chega um tripulante para saber o que esta acontecendo. Shonan Maru II esta cada vez mais próximo do Steve Irwin e o nosso engenheiro Erwin procurou ajudar como pode no processo para recolher o helicóptero para o hangar. Bevin e Joshua, os técnicos que trabalham para o Chris, conseguiram fazer bem o seu trabalho e apesar do susto, a missão de recolher o helicóptero para dentro do navio foi bem sucedida e o navio japonês parou de apontar o water canon em nossa direção mudando a sua rota.

Shonan Maru II anunciou três vezes para que nos afastássemos dessa área. Seguimos nosso percurso normalmente, porem os marinheiros já prontos para jogar as garrafas de ácido butírico caso o navio se aproximasse mais. Jogar garrafas com ácido butírico ‘e tradicional da Sea Shepherd.
A intenção deles ‘e com certeza fazer com que não encontremos a frota que no momento esta caçando baleias. Nos rodear ‘e uma forma de fazer com que nos percamos tempo na nossa busca dos navios japoneses.

Eu e Michael fotografamos o que pudemos, e esse material será utilizado no artigo do Paul Watson que vai amanhã para o site da Sea Shepherd.

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Antártida – Aonde o verão é mesmo abaixo de zero!

16-12-2009

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Chegamos ao paralelo 60 graus e agora podemos dizer que estamos oficialmente na Antártida, o mais meridional dos continentes que surgiu quando se separava do antigo continente Gondwana (África) há mais de 100 milhões de anos! ‘E interessante imaginar que antes de todo esse gelo se propagar desde 15 milhões de anos atrás, haviam florestas e um clima bem diferente do atual…
O continente se formou em torno de 35 milhões de anos atrás quando se separou da América do Sul. Estou passando pelo lugar mais frio e mais seco da Terra, cercada pelos oceanos Atlântico, Pacifico e Indico. Mais frio ate que o Ártico porque a maior parte do continente esta acima do nível do mar há mais de três quilômetros.
Ouvi dizer que no verão existe uma população provisória de cientistas em bases polares que pode chegar ate 4 mil pessoas no verão. Mas ainda assim continua um lugar remoto, por não haver população permanente e principalmente pelas condições climáticas severas. Aqui ‘e o único continente inabitado, onde não há regras, leis, política, não pertence a nenhum governo ou país…
O que eu acho mais fantástico ‘e a neutralidade desse continente. Qualquer operação militar ‘e banida, deixando apenas espaço para os 29 países que fazem pesquisas científicas em suas bases (O Brasil esta incluído nessa lista!). Se não fosse tão frio, eu adoraria morar aqui Nas condições em que anda nosso mundo, me parece ser o lugar mais seguro para viver.
Chegando ao paralelo de 60 graus, já estamos no santuário baleeiro e o Shonan Maru II continua atrás do Steve Irwin. Seguimos rumo as águas antárticas francesas.
Tivemos neve pela primeira vez nessa viagem e logo o numero de icebergs no caminho vai aumentando cada vez que descemos alguns graus. Os marinheiros pouco trabalham no convés. ‘E cansativo trabalhar fora do navio nessas condições. As ondas estão um pouco maiores e temos ventos de 55 nos.
Paul Watson faz entrevistas para diferentes emissoras de radio e TV australianas quase todos os dias. A qualquer momento uma ação direta pode acontecer, já que estamos bem perto de onde os navios japoneses costumam ir todos os anos para a caca as baleias. A diferença desse ano ‘e que temos o Shonan Maru II atrás de nos, o que pode dificultar encontrarmos os navios baleeiros. Mas para onde eles forem, iremos atrás para impedir que mais baleias sejam mortas.
Pela manha passaram focas e duas baleias minkes há 10 metros do navio. Elas não chegaram a pular (poder vê-las saltando bem alto e fotografá-las seria um dos meus grandes sonhos nessa vida), mas só de poder vê-las tão de pertinho já ‘e uma grande felicidade, quase surreal de acreditar que estou ao redor dessas criaturas fantásticas. Eu adoraria poder nadar junto com elas algum dia…

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