Entrevista com Dan Bebawi, Contramestre do Steve Irwin
Entrevista com Dan Bebawi
Por: Barbara Veiga:
A primeira vez que Dan Bebawi ouviu fala da Sea Shepherd tinha 12 anos de idade, quando viu um documentário na BBC e fascinado ficou imaginando como ele poderia estar envolvido com a Organização se ele não tinha nenhum contato ou habilidade com navios.
O tempo passou, sua vida seguiu e quando ele completou 18 anos, Dan se tornou “vegano” e ativista da causa verde na Inglaterra interagindo com diferentes grupos que tinham ideais parecidos com os dele.
Seis anos depois um amigo dele conseguiu ser tripulante do Steve Irwin e ele pensou: “- Hum…Sea Shepherd…esses caras são legais, eu lembro deles!”.
Nesse momento, Dan se inscreveu para ser um dos voluntários e conseguiu a oportunidade de navegar com a Sea Shepherd pensando que ia trabalhar como mecânico, já que essa era a sua profissão inicial. Mas finalmente ele acabou sendo direcionado para outro departamento e junto com esse amigo ele começou sua historia da organização, tendo que aprender com outros tripulantes tudo sobre barcos e a vida a bordo de um navio.
Dan é o nosso “bosun” (contramestre), que traduzindo seria chefe dos marinheiros. Ele começou a navegar no Steve Irwin em 2006, já foi preso durante campanhas que esteve envolvido e não mede esforços para fazer aquilo que acredita e defende.
Sua família ée de origem egípcia, mas Dan foi criado na Inglaterra desde os cinco anos de idade.
Ele acaba de completar 20 meses e 130 dias de mar no navio Steve Irwin.
BLOGUE: Quando foi sua primeira viagem no Steve Irwin e como era a tripulação a bordo? Você se adaptou facilmente ao novo estilo de vida que te esperava?
DAN: Nossa tripulação era bem pequena, apenas 14 pessoas navegando. Estávamos saindo da Escócia em direção a Franca. Eu não sabia nem como atar um nó, o que pensando hoje é engraçado. A adaptação foi fácil e rápida.
BLOGUE: Você tem alguma historia engraçada durante seu trabalho? Algo que você ri quando lembra?
DAN: Sim, quando cruzamos a linha do Equador. Acho que faz parte da tradição de todos os navios….nos vestimos de piratas, fizemos uma festa… Foi muito legal.
BLOGUE: Qual a lembrança mais marcante que você tem durante esses anos navegando com o Steve Irwin?Pode ser tanto boa como ruim.
DAN: Eu acho que uma verdadeira combinação do que vivi a bordo de bom e ruim foi durante nossa primeira campanha. Nosso combustível estava terminando e pensávamos que íamos voltar para terra sem ter cumprido com a nossa missão, o que foi muito angustiante. Então era isso! O que íamos fazer? Daí eu me lembro de um dia especifico. Era meia-noite, nos estávamos no mar entre 60 e 70 dias, indo desde a Escócia ate a Antártida. Pensei: “-Uma longa travessia e não tivemos sucesso.” O navio estava indo norte, já voltando, e eu me senti muito triste, depressivo… até que finalmente eles estavam lá! Fizemos o que tinha de ser feito no meio de toda montanha russa que essa campanha tinha sido e nos saímos bem.
BLOGUE: O que você acha sobre o “Whale Wars”? Tem sido mesmo um bom meio para divulgar a mensagem e o trabalho que a organização tem feito ao longo dos 32 anos de existência ou a mídia tem de certa forma manipulado e revertido para uma maneira mais “comercial”?
DAN: Como um tripulante, tenho que dizer que o que esta na televisão não é exatamente o que acontece. As datas e a ordem dos fatos são mudadas, e eles gostam de colocar as perseguições entre uns e outros, coisas que não vão bem a bordo… esses tipos de coisa. Então como tripulante e alguém que estava lá o tempo todo é um pouco frustrante porque você sabe o que realmente aconteceu e quando você vê como parece na televisão você pensa “O que essa gente doida pensa que esta fazendo?”. Mas também muitas pessoas assistem “Whale Wars” e jamais conheceriam a Sea Shepherd se não fosse através desse meio. A organização conseguiu muito apoio não apenas com o programa, mas por serem pessoas que realmente querem tentar ajudar com a causa. Todas as doações, equipamentos de radio de boa qualidade que recebemos… tantas coisas que jamais chegariam no nosso caminho sem ter a contribuição do “Whale Wars” com a extra exposição, o que acho ótimo. Só é um pouco esquisito ver na televisão, mas vale a pena.
BLOGUE: O seu trabalho no convés requer muita atenção na segurança com os marinheiros e com certeza todo cuidado é pouco. Num navio não se brinca, afinal você é responsável pela vida dessas pessoas. Isso gera um certo estresse em você?
DAN: É verdade, às vezes o trabalho no “deck” funciona com muita pressão e com certeza lidar com os riscos na vida das pessoas é algo serio e que precisa de cuidados. É um tipo de trabalho estressante sim, mas eu não pressiono ninguém e sou o que sempre procura pedir para as pessoas relaxarem, tomarem seu tempo de descanso ou folga. Acredito que toda tripulação que se voluntaria para trabalhar aqui é porque realmente se importa com o que fazemos. Todos trabalham duro e procuram dar o melhor de si… então de certa forma tem um lado fácil de lidar com essa responsabilidade. As vezes o trabalho é chato, muita limpeza, martelada, pintura, manutenção do navio… mas a causa é grande.
BLOGUE: Você disse que esta desde 2006 morando no navio a maior parte do tempo. Ter sua namorada a bordo com você te faz sentir mais “em casa”, já que esta longe da sua família?
DAN: Eu acho que é muito bom para o nosso relacionamento, porque senão não iria funcionar pelo tempo que fico embarcado e pelo estilo de vida que sigo. Ela não está aqui por minha causa, mas por acreditar naquilo que faz e por se importar também com a causa. É ótimo fazer algo junto com sua companheira e não acho que todo mundo tem essa oportunidade. Então penso que sou muito sortudo de poder trabalhar com alguém que gosta das mesmas coisas que eu.
BLOGUE: Então do que você sente falta?
DAN: Ahh eu sinto falta dos meus amigos…
BLOGUE: -Você já foi preso em algumas das campanhas, certo? Como foi essa experiência? Fez diferença nos seus valores?
DAN: A partir do momento que você tenta mudar alguma coisa dessa maneira, você afeta os negócios de alguém e esse alguém perde dinheiro, então… eu não acho que fiz algo errado ou ilegal e isso para mim faz a diferença e é uma grande chance para mudanças com assuntos que são relevantes para mim.
BLOGUE: Em situações de confronto com outros navios durante as ações, você se sente amedrontado?
DAN: Claro! Eu acho que qualquer um se sentiria amedrontado quando vários navios te rodeiam com uma distancia de 5 metros de você, chegando perto pronto para uma colisão. Isso pode ser bem louco, sem duvida. Medo é algo importante e faz parte do senso comum. Mas sim, tem vários momentos assustadores durante as ações, com certeza. São que eu estou aqui por uma razão e por estar envolvido com o que faço e me sinto confortável em fazê-lo.
BLOGUE: O que você espera da Operação Waltzing Matilda?
DAN: Nós estamos constantemente aprendendo coisas, aprendendo com nossos erros anteriores então acho que a cada ano nos tornamos um pouco melhores. Nossa tripulação esse ano é fantástica e estou esperando o melhor para essa campanha.
BLOGUE: Qual mensagem você deixaria para todos os membros que colaboram para a organização e fazem isso tudo ser real?
DAN: São apenas 40 camas nesse navio e temos milhões de pessoas que gostariam de viver isso também. Eu queria dizer que pessoalmente, fazer parte mais uma vez de uma campanha é um grande privilégio. É bom poder fazer as coisas funcionarem, ter certeza que o navio esta em boas condições, etc… e com certeza, se não fosse cada membro colaborando, participando não seríamos capazes de seguir adiante. Portanto eu gostaria de agradecer todos pela ajuda.